sábado, 1 de outubro de 2011

Essa coisa de saudade...


                                                                                         Por Evandro Carvalho 


"O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória imperecível"
(Adélia Prado)

Sou do tipo que gosto de rever coisas velhas, álbuns, retratos, cartas, enfim coisas que se tem poucos vestígios, mas que fazem brotar muitas saudades - e saudade é uma efemeridade do ontem e do hoje. Restando apenas uma neblina e um fundo musical. Às vezes suave, ou cheios de presságios! Quem nunca sentiu saudade que atire a primeira pedra. Existem manhãs que trazem cheiros de tempos remotos, de rostos inesquecíveis.
           
Saudade são vistas a longa distância que se repetem em quilhões, é uma lembrança que já aconteceu, ou que gostaríamos que tivesse acontecido. É passagem da infância para adolescência; da adolescência para vida adulta, mas saudade é e sempre será criança. É o primeiro beijo que foi tão fugaz e eterno debaixo de chuva; é o cheiro do orvalho; da comida que gostamos e que só de pensar sentimos o cheiro, e só de fechar os olhos vemos nossa mãezinha preparando. Saudade tem cheiro de paixão, e paixão é o avesso do corpo pedindo bis, é como um eco no centro de um deserto gritando por retrocesso.
           
Rubem Alves soube escrever muito bem do que se trata: “Saudade é o revés de um parto, é arrumar o quarto para o filho que já morreu”. É a ausência de um filho que não nasceu o espaço entre o finito e o infinito, uma mistura do belo e uma despedida. É o beijo que não aconteceu, a declaração de amor que se perdeu, a idade que passou, é a viagem que não deu certo, o barulho de chuva gostoso  que nos acalantava até dormirmos, é a mesa de piadas, a escola com os amiguinhos do primário. É o feemérico! Uma mistura do consumado e o desejado. É uma quimera!
           
E ela está em tudo, nas alegrias, nas tristezas, num fim de dia nublado ou frio, numa poesia, numa música. Está nos nossos sonhos. Os sonhos são amantes da saudade, é uma viagem para dentro escreveu Jostein Gaarder.

“Quando nós viajamos para longe, vamos para fora. E quando sonhamos viajamos para dentro. Quem sabe seja possível viajar em duas direções ao mesmo tempo?”

Os sonhos é uma carona para a saudade que tem como referência o tempo que foi preenchido ou que ficou para ser preenchido depois; a saudade não preenche o vazio, pelo contrário, abre o vazio, e o tempo preenchido vem em forma de alegria, sonata, de cheiro, chuva, música, vento frio, nuvens, cartas, presentes...  Saudade é isso, um presente a ser aberto! A emoção de desembrulhar o pacote!
Sabedoria é isto: é contemplar o aqui e o agora sem deixar ser desperdiçado por ele!

“O homem tem dois olhos - cita Alves – um somente vê o que se move no tempo que passa.
O outro,
Aquilo que é divino e eterno”.

Quiçá, o segredo fosse o olho da saudade, coisas divinas e eternas como o cariciar de duas mãos e uma troca de olhares apaixonados. Saudade é uma palavra que foi dita, porém não pronunciada, nem escrita, nem contada, apenas contemplada.  "As mais belas palavras, escrevera Leonardo da Vinci, foram pronunciadas no silêncio entre dois olhares." Saudade é enamorar uma cena da nossa vida em preto e branco. Ela tem cheiro de campo molhado, flores perfumadas, sorrisos inacabados, amores desejados, pontes não atravessadas..., saudade são águas que um rio levou; ventos que abre portas num vai e vem sem perder o mistério do pensamento. É o pensamento abrindo portas de um museu, com relíquias raras; é um acúmulo de lembranças boas, e dentre elas vem aquelas que dá vontade de rir, pular, gritar, chorar, fugir! É um treco fugaz que tranca o coração em lágrimas e alegrias. São fugas do pensamento também desejando sentir o mesmo, é uma viagem no infinito com peças selecionadas.
           
Não se fala, saudade não tem tempo, descrevendo-as, pronunciando-as, escrevendo-as, tenha consciência de sua eternidade, e que isso não duvide ninguém, é uma estrada onde o pensamento não tem direção.
“Uma coisa que não tem nome – escreveu José Saramago – essa coisa é o que somos”. Digo eu, uma coisa que não tem nome, essa coisa só pode ser saudade; o soluço do tempo encaixado e guardado no âmago do nosso ser.
           
Em uma frase a doutora Racher Remem disse: “Muitas coisas na vida não podem ser explicadas, apenas apreciadas”. E é assim, lembranças nostálgicas deve ser uma apreciação e reconhecimento que há coisas na vida que ficaram gravadas, e não sabemos onde, mas que de vez em quando são reviradas, e o distante fica perto, o coração bate mais forte porque toma consciência que saudade é um grande sinal que estamos envelhecendo.
Porém digo: saudade não se escreve, nem se fala, nem se descreve. Apenas se sente e pronto.

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