sábado, 10 de dezembro de 2011

"O Menino Poeta"

O MENINO POETA ( meu amigo Evandro, o poeta, mandou-me esta crônica e partilho aqui com vocês com muito carinho)
             Brincar com as palavras é uma dádiva dos poetas, - falou o mestre. - Por isso quando eu crescer quero ser poeta! – gritou o menino angustiado no meio do mato, porque não conseguia brincar com seus carrinhos, seus bonecos, suas latas..., o que ele queria mesmo era brincar de Ser poeta. Mas brincar de poeta para os outros meninos... Pimba! Só algazarra! O menino, coitado, não sabia com quê brincar; não sabia com quem falar; pois, fazer poema ou falar de poesia não era brincadeira de menino; era está falando de ociosidade, dos que não tem o que fazer. Mas, o garotinho tinha o que fazer: fazer-se Ser poeta!
            Um belo dia o menino olhou para o céu e descobriu que brincar de Ser poeta é só fechar os olhos e sonhar com o que lhe falta. No entanto, descobriu que lhe faltava tudo! E o tudo é o que tem de ausente nos poetas. “A poesia – brincou Rubem Alves – não é uma expressão do ser do poeta. A poesia é uma expressão do não ser do poeta. O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta. Escrevo porque tenho sede e não tenho água. Sou pote. A poesia é água. O pote é um pedaço do não ser do poeta”.
            O tempo passou e o menino cresceu, e a ausência também cresceu. Ausência de quê? Ausência de ser poeta. Para salvar-se do mutismo e da infelicidade começou a escrever. Escreveu coisas que lhe faltava: amor, ódio, paixão, casa, sonhos, mar, pote, estrelas, flores, beija-flor, vaso, morte... Escreveu até o céu! Ao escrever tudo isso, ele conseguiu algo que nem ele mesmo sabia: descreveu o ser do poeta! Mas onde está o ser do poeta? Está em tudo! Está em nada! Tudo é o que é ausente nos poetas; e se é ausente é o nada. O poeta é o “nada-tudo” é o “tudo-nada”! O poeta nada em busca do tudo. E o tudo é água que foge, escorrega, desliza rumo ao riacho. O riacho são os sonhos, que dentro está imerso o não ser dos poetas. É este não-ser que fez o menino ser poeta. A poesia são estrelas e o poeta é um menino que brinca com elas; apenas um menino que aprendeu a brincar tarde com seus brinquedos.  Brinquedos feitos de palavras que combinam com todas as brincadeiras do mundo!
            Conquanto, sendo já robusto muscularmente o rapaz se perguntava:
- Quando deixarei de ser menino?
- Nunca – respondia o mestre. Porque o dia em que você deixar de ser menino, nesse dia deixará de ser poeta!
Mas qual o ser do poeta? É um menino que aprendeu a brincar só, e seu brinquedo são as palavras! E se se aprendeu a brincar só, logo..., seu brincar não tem limite; seu limite é o sono que lhe arrasta a debruçar em cima da escrivaninha. Os poetas não sabem ensinar fazer poesia, o que sabem é ensinar ser livre; e ser livre é o ser do poeta! Ao levantar a cabeça ele se espanta, mas logo se acalma, pára para olhar em sua  volta e num súbito ver uma caneta e pensa:
- Os poetas são canetas que só tem sentido se se consomem escrevendo!
            Esta é a segunda vez que me remeto a escrever sobre os poetas. O porquê, não sei! Só sei que o coração pediu, então tentei!. O coração é o universo só dos poetas! Seu mundo não é a biologia; nem a psicanálise; nem a astronomia..., apesar de falarem de estrelas, sentimentos, anatomia... , mas não encaixa no protótipo dos poetas; as estrelas das quais os poetas falam ficam dependuradas na abóbada rubra do coração. Sua ciência é o amor! Talvez se aproxime da etimologia filosófica: a busca amorosa à sabedoria. Mas não a sua posse! A sabedoria são águas do coração que não sacia a sede dos poetas. Sede da sabedoria, mas não seu esgotamento! Ela é a nascente de um rio que os poetas nadam em direção.
“Os poetas, escreveu Alves, eles rezam para que nunca deixem de ter fome. Por que se deixarem de ter fome, eles deixarão de ser poeta”. No mesmo tom eu digo: os poetas rezam para que nunca deixem de ter sede. Por que se deixarem de ter sede deixarão de ser poeta. A condição de ser poeta é a insatisfação! A satisfação dos poetas é o contínuo tempo de estarem insatisfeitos. A inapetência é o fim de sua ciência!
“Salve-me, ó Deus, da dor do amor não satisfeito, e da dor muito maior do amor satisfeito” (Ts. Eliot).


            Sabedoria é isso, descobrir a insuficiência que o amor não se esgota com palavras. É ai que mora a razão de ser poeta!
            E as palavras? São os brinquedos dos poetas. Um brincar infinito, sem limite que obedece somente às leis do coração (leis da liberdade)! Pra mim é como um chazinho no final da tarde, quanto mais bebo mais gosto! Melhor ainda quando vem acompanhado de uns biscoitinhos e uma boa conversa. Assim são as palavras, uma ligação entre chá, tarde, biscoitos e conversa. Elas só fazem sentido quando tornam-se amantes uma das outras, assim como minha tarde. Só tem sentido porque sou amante de chás! As palavras não têm dose certa; tem certa mania de querer falar do não ser do poeta. Qualquer dia é a linguagem das palavras. Sua linguagem é como um canto de rouxinol: alegre, triste ou bélica! O canto é assim! É canto delas mesmas. E os poetas são como um canto gregoriano. Um canto cantando seu próprio canto!

Evandro  Carvalho
Obrigado meu querido poeta(Rita Leite)

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