segunda-feira, 23 de abril de 2012

“Uma menina entre as figueiras"


Uma menina passeava pelas figueiras, observava os rebentos serem abraçados pelo sol e seus diminutos frutos se arredondavam como a lua crescente em noites prateadas. Uma mente contemplativa nascia no seio do deserto. Não tinha muito, mas tinha tudo. Vestes humildes, coração gigante. Transparente, encantava pelo que era não pelo que tinha. A menina cresceu tornou-se adolescente. Fez da arte de agradecer seu cálice diário e da arte de questionar seu pão de cada dia. Homenageava a existência, ao sol, à chuva, ao riso e as lagrimas, ao drama e à comedia. Seu olhar capturou um jovem de mãos calejadas. As pesadas toras, atritos das ferramentas o tornaram tosco por fora, mas não furtaram a sensibilidade por dentro. Enamorou-se.
Coração palpitante, emoção borbulhante, seria mais um casal que construiria uma simples historia. Mas quando pensava que iam cair nos braços um do outro, subitamente o amor foi interrompido. Todo amor passa por testes, o deles, era quase impossível.
Ela sonhava com seu romance, sua casa, seus filhos e com as estratégias para sobreviver. Os pesados impostos romanos massacravam as esperanças de seu povo.
Quando velejava nas águas da imaginação, uma misteriosa personagem invadiu seu aposento. Seu coração palpitou seus olhos, assombrados, se estatelaram. Deveria bater em retirada, mas para nosso espanto ficou. Recebeu o mais espetacular dos convites. Não havia letras douradas nem papel refinado. Um convite oral, endereçado a seus ouvidos. O mensageiro dizia que o Artesão da existência, realizou um concurso, com milhões de participantes. Era um concurso de beleza, no entanto, da mais fina delas: a beleza interior. A beleza que o tempo não apaga que o poder não domina que o dinheiro não compra e que o culto à celebridade jamais pode seduzir. “Tu és cheia de graça. Eis que engravidaras e darás à luz um filho. Ele será grande e será chamado Filho do altíssimo.” Ela seria a mulher mais famosa da historia, a mais elogiada e a mais querida. Mas a fama não a seduzia. O convite traria elogios surpreendentes e rejeições “insuportáveis”, ganhos solenes e perdas irreparáveis. Perderia seus dois amores. Primeiro o homem que escolheu para construir a sua historia, depois, o mais forte, o mais avassalador, perderia o filho com o qual construiu a mais bela historia de amor. O mensageiro partiu sem deixar vestígio.  Tão jovem tão saturada de júbilo e de esperança. Mas bastaram dias para atravessar o deserto social. Onde estava a mãe mais exaltada? Foi humilhada, abandonada, seu noivo se foi, as amigas desapareceram. Alguns parentes talvez pensassem que ela delirava. De repente, quando olhava o horizonte, viu a figura de um homem. Seus passos ansiosos denunciavam um forte desejo, um reencontro, um recomeço. Era o homem que a abandonara. De longe abriu os braços. Sob uma aura de emoção incontida, ela saiu e correu a seu encontro. Abraçou-a e beijou-a e pediu desculpas disse que enfrentaria o mundo com ela. O tempo passou, a gravidez evoluiu, a barriga cresceu e não houve pré-natal. Ela carregava o bebê mais famoso da historia em seu útero, mas o útero social não era generoso com ele. Chegaram a Belém. Aplausos na chegada? Nenhum.  Hotéis? Pensões? Não havia. Médicos para assisti-la? Nem sequer uma parteira. Deu a luz ao menino mais célebre no lugar mais miserável. O menino mal nascera e não tinha direito de viver, teve que fugir. Partiu para outro país. Carregava seu filho no colo por quilômetros infatigavelmente. Protegia-o com a própria vida. Mãe e filho tornaram-se grandes amigos desde a infância. Ele era disciplinado. Trabalhava muito bem com madeira, cravos e martelos, enfim, as mesmas ferramentas que um dia o matariam. Chegou o dia da partida. Foi muito difícil para ela. Seu filho foi levado à casa de Pilatos. Seus discípulos o abandonaram. Vê de longe uma face desfigurada, carregando uma trave de madeira. O filho que ela carregou no colo, beijou todos os dias, estava sangrando. Sua mãe o acompanha. Quando ouviu os pregos cravarem seus punhos na cruz, era sua emoção que estava sendo cravada. É meu filho! É meu filho! Aos brados conseguiu aproximar-se dele. Ele controlou sua dor para proteger sua mãe. Não podia abraçá-la, nem beijá-la, nem consolá-la. Mal conseguia falar. Mas disse-lhe uma notável mensagem: “Mulher, eis aí teu filho.” E apontou para João. Ele queria dizer: Mãe, eu vou, como a alertei. É pela humanidade que estou aqui. Mas João cuidará de ti. Quando ele beijá-la será meus beijos em ti, quando ele abraçá-la será eu quem estará te abraçando. Jamais deixarei de amá-la. A mulher mais famosa foi a que mais desprezou a fama, foi a mais discreta e serena. Não queria elogios nem aplausos, apenas abraçar seu filho e beijá-lo enquanto ele morria, mas nem sequer teve esse direito. Seu nome foi MARIA, tão simples e tão forte. Foi assim que mãe e filho secretaram a mais bela poesia de amor no inverno mais rigoroso da existência. Gritaram seus indecifráveis gestos de que vale a pena amar e que só o amor nos torna inesquecíveis e insubstituíveis..
( Texto extraido do livro Mulheres Inteligentas, Relações Saudáveis de A. Cury)

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