sábado, 21 de setembro de 2013

PEQUENAS MEMORIAS DA MINHA PEQUENA PRESENÇA NO PAÍS DAS FILIPINAS
Barulhos e batidas em compassos similares começo escutar vindo da rua, mas antes escutei o monótono sino das seis  que badala justamente quando o ponteiro do relógio marca seis horas todos os dias. Era quase noite, mas o ensurdecedor barulho persistia lá fora. Fui convidado a sair do meu quarto por uma coisa chamada curiosidade. Deixei de lado meus exercícios de inglês e sai a procura dos autores daquele som. Me aproximei, inclinei bem meus ouvidos  no rumo da rua,   foi quando uma lembrança repentina me veio através dos zunidos que já começa ficar familiar aos meus ouvidos: "Bate o sino pequenino sino de Belém, pam, pam pam, ...  para o nosso bem!" 
Espantado me contive, porque comecei a refletir sobre a conhecida musica, foi quando me dei conta: "Uma semana antecede o natal! Meus Deus como pude esquecer completamente deste tão importante fato... !" Abri o portão - pro meu espanto - crianças enchiam os lugares tanto na esquerda quanto na direita da rua cantando, tocando, e recordando os "esquecidos" que o Natal se aproximava com uma "Boa Nova". Me contive nas lágrimas, porque fiquei emocionado. Nunca tinha visto coisa tão bela. Uma rua cheia de crianças pobres entoando, - quase uma universal canção - mas com o coração cheio de riqueza que Jesus esta nascendo outra vez pra todos. 
Como de costume, aqui em Filipinas - decidi também seguir a tradição: levantava todos os dias três da madrugada para ir a missa (isso durante uma semana antes do natal). As vezes meio que dormindo seguia a batida rotineira, tão pesado pra mim - porque tinha que estudar no outro dia. Mas confesso com o coração emocionado que durante aqueles dias, uma só coisa resumiu aquela semana. Foi quando num dos dias,entrei  na igreja, sentei-me e comecei a revisar meus vizinhos da esquerda, da direita, e da frente,  então quase que acabando a revistoria costumeira, meus olhos topa uma mal trajada cena na minha frente: uma mulher com um bebe no colo. Seus rostos descrevia toda as suas vidas penadas. A missa tomou seu rumo, o menino começou a perambular de um lado para o outro como no Brasil até o momento do ofertório porque enfim dormiu. Mas a mulher continuou atenta aos coletores de oferta; abriu sua suja sacola colocou a mão bem no fundo, puxou um pequeno pedaço de papel amassado, desenrolou - ate a minha curiosa vista  e lentamente colocou vinte pesos no saco de oferta. O ultimo dinheiro daquela feia bolsa. Mas uma vez me coloquei fora de mim e comecei a chorar por dentro. Os evangelistas descreveram a respeito de uma pobre viúva, que colocou uma pequena moeda, mas que foi muito ao olhos de Deus,  porque ela ofertou a si própria. A mesma cena  um pouco diferente  vi se concretizar na frente dos meus olhos. Aquele fato resumiu meus critérios de egoísmo. Aprendi que devo ofertar minha vida a Deus ate mesmo quando não tenho nada pra ofertar. Quando não sei falar, quando não me expressar, quando não sei rezar...!

Querida Rita já se passou um ano, você esta certa. Aprendi  e estou aprendendo muita coisa neste meu novo lar, principalmente: tirar as sandálias! Ser humilde!
Agradeço do fundo do meu coração a presença de todos vocês na minha vida! Não arrependo-me de tê-los conhecido. Agora que o inglês se tornou mais fácil, pareço criança quando aprendeu a falar... fala, fala ate a mãe mandar calar a boca. Me sinto assim, mas ainda tenho muito que aprender. Durante esse ano que passou, eu praticamente me desliguei da minha cultura com o objetivo de adequar-me melhor principalmente à língua. Foi um ano muito doloroso e talvez ainda sinto algumas latejadas, vez e outra. Também tenho saudades de todos vocês. Tenho saudade das boas gargalhadas, das piadas sem graça, aquele cafezinho, enfim, tudo! Tomando distância conseguimos ver as coisas com mais sacralidade. Vocês são os sacramentos fixos na minha memória e no meu coração. 
Este texto acima  escrevi alguns meses aqui nas filipinas, uma semana antes do natal. Eu estava tão focado em aprender a língua que esqueci que era natal.  Miopia do desespero, pressão emocional! Estou superando pouco a pouco, mas ainda tem muita barreira para ser quebrada. reze por mim sempre.
Com o coração de filho,
Evandro (pra sempre poeta, pra sempre aprendiz, pra sempre caminhando, vivendo feliz, pra sempre buscando, pra sempre fugaz, pra sempre sonhando, onde a vida nos traz). 
(Por Evandro Aires de Carvalho o meu poeta querido)