segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O SACRAMENTO DO POTE VELHO




Acho que demorei muito tempo para entender o que é um sacramento ou ainda nada haver entendido! As possibilidades ficam em aberto! Mas só sei que perdi tempo demais buscando definições e considerações acerca do assunto, por sinal, definições já pré-estabelecida e determinada sem qualquer possibilidade para se deleitar no riacho da imaginação. Os catecismos sempre nos ensinaram desta maneira – ensinaram-nos somente agradecer sem questionar assunto qualquer que for! Insensatos catecismos que coagem nossa maneira de relacionar-se com o mistério!
Poderia ter me sido mais lúcido, para explicar-me que os sacramentos não se reduzem somente na perfeição (sete), mas que toda imperfeição é sinônimo de sacramentalidade ainda não percebido e significado. Tudo é sacramento! O universo é o sacramento mais perfeito de Deus! O homem é um sacramento em construção! A sua “sacra-virtude” depende unicamente de si!
Quantas coisas nesse meio tempo tornaram-se opacas por não serem cristalizadas no interior do homem. Pensei longe -, pensei quando morava ainda com minha família, meus pais e cinco irmãos, uma casa de barro e..., um pote que o papai e a mamãe ganharam de presente de casamento. No inicio era apenas um simples pote como tantos demais potes novos: um pescoço, duas orelhas, e uma barriga, mas com o passar do tempo ele também foi passando: uma orelha quebrou e seu corpo ficou sarnento..., mas de vinte anos passaram e, agora o pote não é mais um simples pote! Ele tornou-se um sacramento!
Nas minhas férias quando avisto aquele ilustre e magnífico sacramento, vejo águas guardadas no seu interior, bebo de uma fonte passada, guardada na história da minha simples família. Aquele pote, agora já velho, não revela somente que estamos ficando velhos! Ele reflete a imagem do papai chegando da roça e pescando um copo d’água; minha querida mãe cedinho enchendo suas entranhas com água morna do poço – a primeira do dia; madrugadas sem sono que pedia andar a esmo pelo corredor da casa... Aquele pote velho tornou-se algo que transcende; vai além de sua presença esturricada e quase destruída. Desdenha sobre si uma fotografia perdida na memória, mas ao ver e tocar seu rosto lânguido encontramos no fundo escuro uma gota d’água que deixa transparecer lindos rostos coloridos, ainda vivos e bem vivos! Ele tem uma história gravada; tem segredos que poucos conhecem! Ele tem vida! Vida de barro! Basta um sopro para ressuscitá-lo!
Suas finas paredes amedrontadas revelam minha senhora mãe fazendo café na matina escura e fria para meus irmãos de saída para o colégio. Agora ele não é um simples pote, é um tesouro digno de respeito e veneração. Não é um objeto opaco; ele tornou-se sujeito (sub-iectum), nos lembra Leonardo Boff, ele possui uma história – sem história ele era um simples pote como outro qualquer! É um pote/sujeito!
Ao vislumbrar seu corpo por fora vejo uma grande deformação feita pelo tempo, mas ao olhá-lo nas entrelinhas de seu ser me confronto com mais de vinte anos que já se foram. Nesta situação ele passa do imanente para o transcendente! Ai tudo fica transparente – tudo é diáfano!
Vez e outra quando a família se reúne nos reunimos sem querer ao redor dessa lembrança que virou sinônimo de grandes risadas. Um velho pote no canto daquela velha cozinha nos faz rir, coitado! Viu tantas coisas acontecerem! Momentos de eternas alegrias e infelicidades; a comunhão na hora de almoçar e de jantar; a comunhão de eternas estórias que o papai contava, que ia desde um tal de “engole pedras” até chegar em bruxas com poderes de sarar cortes de árvores com sua saliva. As estórias eram sempre as mesmas, porém a sensação de ouvi-las era sempre nova, nunca se esgotavam. Esgotava-se a noite e o sono nos arrastava madruga a dentro ao leme de cantos de grilos e bacuraus! Momentos assim são eternos! E ele o único a saber de tudo isso, pois, estava lá! Mesmo sem falar e ouvir ele conta uma história. O velho pote virou um ser dentre todos os outros objetos da casa que comunica. É uma imagem de coisas ausentes presentes! Um corpo vivo do nosso passado! “O passado escreveu Boff, é sacramento do presente. Sacramento é tudo, quando visto a partir e a luz de Deus: o mundo, o homem, cada coisa, sinal e símbolo do transcendente”.
O pote tornou-se um ser alado, voamos agarrados na sua orelha frágil de barro. Sua imagem é uma fotografia antiga fechada em uma mordaça que ao vê-la da vontade de chorar! Acho que devo concordar com a Adélia Prado quando diz que o que é bonito enche os olhos de lágrimas! O pote é bonito, logo... O velho pote virou um silogismo que enche os olhos de lágrimas; não é lógico, mas é real. A lógica não me faz chorar! No entanto é muito mais que isso! É um sacramento...
Evandro Aires de Carvalho