sexta-feira, 6 de junho de 2014

SER MISSIONÁRIO, UM PRESENTE DE DEUS



já faz cinco anos que estou aqui em Yaoundé, capital dos Camarões. Vim aqui para terminar minha formação de base em teologia. Já é tempo de partir e abraçar uma nova missão. Confesso que estou com o coração na mão, mas faz parte da vocação do missionário: ter um coração sem fronteiras, elástico, que sofre  a cada "adeus" e que sorri a cada "prazer em conhecê-lo". Foi o Senhor quem me enviou aos Camarões, quero agradecê-lo por alguns presentes que ganhei, eis alguns que devo carregar sempre comigo, na minha mochila de missionário:
Os braços abertos dos meus irmãos xaverianos que me acolheram e me ajudaram a dar passos importantes na minha formação missionária. eles vem dos quatros cantos do mundo. Não é sempre fácil viver juntos, com tantas diferenças, mas aprendemos que o amor de Cristo nos une em uma verdadeira família à serviço da Missão.
O sorriso acolhedor do povo camaronês. Muitos me acolheram como filhos, um irmão, um amigo. Tive que aprender muita coisa, como uma criança; aprender a falar, a comer, a dançar, a rir, a estudar, a rezar de uma maneira nova. nem sempre consegui, às vezes julguei sem conhecer, às vezes me considerei superior, às vezes perdi a paciência...mas eles me perdoaram, me deram sempre uma nova chance. 
Uma fé renovada que me ensinou descobrir Jesus no rosto e na cultura de cada irmão. É muito lindo reaprender a rezar. Trabalhei dois anos na prisão central de Yaoundé e a cada conversa eu descobria uma palavra nova de Cristo, dirigida a mim mesmo, a partilhar com os outros.
Um sustento todo novo da família, dos amigos, da paróquia e dos xaverianos que ficaram no Brasil e de uma maneira toda especial dos meus pais e meus irmãos. O amor, a fé e a participação de todos vocês á missão são força da ação missionária que se realiza em todos os cantos deste mundo. 
É uma graça ser missionário, um presente de Deus. Aprendemos, como São Guido, a procurar, amar e encontrar Cristo em tudo e em todos. Vemos Deus no meio do mundo e o mundo no coração de Deus. Descobrimos a cada instante que o Reino está lá crescendo como grão de mostarda. Que a luz é bem mais forte que a escuridão. E que a vida já venceu a morte.
O Senhor chama a todos nós a espalharmos seu Evangelho de vida e alegria onde persistem a morte e tristeza. Mas Ele chama alguns a fazê-lo além das fronteiras da própria cultura.
 Jovens, coragem! Não só o Brasil, mas o mundo precisa da fé e do sorriso de vocês. Assim, aos poucos, fazemos do mundo uma família ao lado do Pai.
 Para continuar vivendo este ideal, serei ordenado presbítero dia 09 de agosto, as 16 horas, em Sumaré SP, e assim prosseguirei vivendo o presente de ser missionário a serviço do Reino de Deus.
Adriano Cunha Lima sx








Fonte: Revista Famíla Xaveriana mês junho-agosto 2014

QUATRO PALAVRAS DO MISSIONÁRIO


Quando começamos os estudos da língua tailandesa, no primeiro dia de aula, a professora nos ensinou quatro palavras muito importantes que iriam nos acompanhar durante todo o período de aprendizagem desta língua, ou seja: fan didi(escutar bem), du didi(ver bem), kít didi(pensar bem), e finalmente pût dan dan(falar alto). Estas palavras me ajudam a partilhar um pouco do meu ministério missionário Tailândia.
Escutar bem
 A primeira coisa que o missionário é chamado a fazer, entrando em uma nova terra, é colocar-se a escuta do povo que o acolhe. Este processo, difícil e delicado, é essencial para uma inserção verdadeira e adequada na vida deste povo. 
Desde que chegamos a Tailândia estamos procurando escutar através de encontro e diálogos com religiosos e religiosas que aqui trabalham a vários anos. Mas, sobretudo, a relação cotidiana com amigos e amigas, leigos e leigas tailandeses nos ajuda a escutar e a acolher o vento impetuoso que o Espírito sopra nesta terra. 
Se a atitude de escuta não é nada fácil, escutar em outra língua é uma dificuldade ainda maior. O idioma tailandês (que possui caráteres próprios, 44 consoantes, 32 vogais e 5 tons diferentes) se apresenta como um grande desafio, mas é fascinante devido à beleza que ele possui. Muitas vezes os obstáculos da língua e as dificuldades em escutar são superados através de um gesto de amizade, gentileza e cordialidade.
Ver Bem
O missionário é chamado a olhar ao seu redor para compreender melhor o "universo cultural" que o circunda. As nossas atividades pastorais, na paróquia e nas periferias - que se desenvolvem em colaboração com as irmãs Xaverianas e os padres do PIME - são para nós oportunidades de ampliar a nossa visão e alargar os nossos horizontes. 
Um olhar atento nos leva a dotar gestos e atitudes, cheios de valores e significados, que caracterizam o povo com o qual vivemos. Por exemplo, aqui na Tailândia antes de entrar na casa de outra pessoa, ou na própria casa, é preciso tirar os chinelos ou os sapatos como sinal de respeito e cortesia. Também o modo de cumprimentar, unindo as mãos e fazendo uma reverência, exprime atenção e gentileza. 
Olhando à nossa volta, nos deparamos também com problemas que são verdadeiras feridas na sociedade tailandesa, como por exemplo: a prostituição e o fenômeno da imigração.  O olhar do missionário, porém, não se limita a um simples observar, mas procura imitar o olhar de Deus que "vê a situação do seu povo, escuta o seu grito de aflição e desce para libertá-lo."
Pensar bem
Escutar com atenção o existente ao nosso redor, ver com deferência o contexto no qual estamos inseridos, nos ajuda a pensar em profundidade. Esta profundidade é fruto da ação do Espírito em nós que nos leva à cultura do encontro e nos impede de permanecer na superfície das coisas e dos eventos, capacitando-nos a vislumbrar - na realidade que está diante de nós - vestígios do divino; pegadas da presença de Deus. A Tailândia é um país onde a maioria da população é budista. O numero dos cristãos não chega a 1%. Este contexto nos pede empenho no âmbito do diálogo inter-religioso, conscientes de que as "sementes do Verbo" estão espalhadas em todo lugar e pedem plenitude. Este caminho nos leva a procurar aquilo que nos une que é muito mais do que aquilo que nos divide.


Falar alto
A motivação do escutar bem, ver bem e pensar do missionário é o desejo de gritar para o mundo inteiro -  mais do que com palavras, com a própria vida - o amor de Deus para que a humanidade em Jesus Cristo, o qual nos doa seu Espírito que nos impele a proclamar toda Beleza, Bondade e Verdade do evangelho. Esta Boa-Noticia abre diante de nós horizontes intermináveis de fraternidade, caridade e comunhão.
Pe Thiago Rodrigues sx.




Fonte: Revista Famíla Xaveriana mês março - maio 2014